Confesso a falha evidente neste pouco mais de um ano de existência e submeto-me humildemente à vossa punição: o
Queridos Anos 80 não tem dado a atenção justa e merecida à música portuguesa dos anos 80. Para além de um artigo sobre
Manuela Moura Guedes, nada mais. Faço o mea culpa e prometo discorrer sobre os caminhos da
pop-rock nacional daqueles tempos. Até porque tenho muito para recordar. Já agora, e a propósito da temática, vale muito a pena visitar
este site, para onde vos encaminharei algumas vezes ao longo deste texto.
Vem tudo isto a propósito do facto de hoje ter finalmente aberto um dos porta-luvas do meu carro para finalmente, com coragem, perceber que cassetes ali deixei esquecidas há mais ou menos dois anos. E digo com coragem porque nunca se sabe que tipo de seres estranhos se pode encontrar num porta-luvas esquecido há dois anos. De lá retirei um amontoado de cassetes, entre as quais estava
esta preciosidade. Trata-se de uma gravação a que, num dos meus delírios criativos (não sei se também vocês tinham o hábito de dar nomes às vossas cassetes) dei o nome de
Lusitânia Pop.
O
lado A da cassete é o produto das gravações que fazia do programa de rádio cujo nome tenho quase a certeza que se chamava
Banda Lusa e era apresentado pelo
Pitta. Corrijam-me se estiver errado. Foi neste programa que comecei a tomar contacto com o que se ia fazendo na chamada
música moderna portuguesa, um mundo ainda muito "underground", meio artesanal e bravio, no qual sobrava em genialidade o que faltava em meios. Devo fazer este tributo a este programa de rádio (talvez o
Jorge Guimarães Silva possa acrescentar algo sobre isto), ao qual, a par do
Blitz, devo quase tudo na minha educação musical (se assim lhe posso chamar). Mas falemos da cassete em questão.
O alinhamento deste lado A começa com duas canções dos
Flávio Com F de Folha, uma banda do Algarve e que, no final da década, apresentava um som bastante
British. Na altura chegaram a ir à televisão cantar estas duas músicas e tinham duas miúdas a dançar lá atrás. Os Flávio são exemplo claro da fulgurante criatividade (e nalguns casos excentricidade) a que os nomes das bandas podiam chegar. Não me lembro dos nomes destes dois temas. Apenas vos posso transcrever os primeiros versos de cada uma delas:
1. "
Quem é que não quer / Ganhar sem perder / Neste carrossel / com sabor a mel / Sempre a rodar"
2. "
Não vais levar o medo dos outros / de encontrar o muro / Não vais ficar com ódio dos outros / A sorrir no escuro"
Seguem-se os portuenses
Bramassaji, com o tema
Sombras Negras (a confirmar), um tema belíssimo cujo refrão diz "
Sombras negras / Fazem-me lembrar alguém / Sombras negras / Fazem-me lembrar que não sou ninguém".
A canção número quatro é o já clássico "
Mulheres Boas, comendo meloas / Mulheres feias, chupando lampreias" dos grandes
Ena Pá 2000 (que dispensam apresentações).
Depois, tenho aqui os
Sitiados num som ainda típico de "maquete", com ruído de fundo e tudo. Trata-se de uma canção de inspiração
country cujo início diz assim: "
Ai o mar, capitão, que está agitado / Ai o barco, capitão, que está a afundar / Ai os ratos, capitão, abandonam o navio". A certa altura
João Aguardela vocifera "
Não, não não, nunca me engano e raramente tenho dúvidas!". Onde é que eu já ouvi isto?
Os
Ritual Tejo surgem a seguir com
Lenda do Mar, do álbum
Perto de Deus, que eu acabaria por adquirir em CD nos anos 90. Segue-se
Alexandre Soares com o seu tema a solo mais conhecido,
Luzes de Hotel, que fez parte do seu primeiro álbum a solo. Na altura impressionou-me o facto de ele ter gravado todo o álbum sozinho em casa.
A lado A termina com dois temas dos
Ritual Tejo, registos ao vivo de
Foram Cardos Foram Prosas e
Saudade num qualquer evento que eu não consigo identificar. O vocalista
Paulo Costa diz "
Boa noite! Esta é especialmente para vocês aqui, junto ao Tejo, Foram Cardos Foram Prosas". Dá pelo menos para perceber que foi de noite e junto ao rio Tejo. Nada mau.
O
lado B é ocupado por alguns temas da gravação do vinil de
Registos de Música Moderna Portuguesa (1989), se não estou em erro, a úlima edição em vinil de uma colectânea do
Rock Rendez Vous. A editora era a saudosa
Dansa do Som, sem a qual a música
pop-rock portuguesa não seria o que é hoje, digo eu.
O alinhamento na minha cassete é o seguinte:
1.
Ânsia -
Ritual Tejo
2.
Atmosfera -
TomCat
3.
Desejo -
Ecos da Cave
4.
A Noite -
Sitiados
5.
À Noite -
Falecido Alves dos Reis
6.
Pelas Ruas da Cidade -
Margem Sul
Deste álbum, deixei de fora por razões puramente de gosto pessoal os
Agora Colora (
Mátria) e a
Quinta do Bill (
Zézé). A úlima música deste lado da cassete é o fabuloso
Flores do Vício, dos
Der Stil, que fazia parte do
2º Volume de Música Moderna (1986). Nunca mais ouvi falar destes
Der Stil.
E foi assim o meu dia: a ouvir esta
Lusitânia Pop. Valeu a pena a viagem no tempo.